Manutenção vs. Produção: Como Reparar o Relacionamento

A manutenção e a produção em uma fábrica frequentemente têm um relacionamento tenso. Isso é curioso, pois a existência de um departamento só é possível graça ao outro. Um não sobrevive sem o outro. Ainda assim, isso não os impede de se sabotarem ou erguerem barreiras entre si, o que, no fim, prejudica a lucratividade do negócio.

Este artigo discutirá essa relação com ênfase no lado da manutenção, mas os conceitos também se aplicam à produção.


O Jogo da Culpa

Em uma fábrica comum, há dois grupos principais: produção (ou operações) e manutenção. É comum haver tensão, quando não antipatia explícita, entre eles. Comentários depreciativos sobre as habilidades do outro grupo são frequentes. Embora uma rivalidade saudável possa ser positiva, ela se torna prejudicial quando evolui para desrespeito.

Por que isso acontece? É óbvio que um grupo não existe sem o outro. Cada um só tem propósito se o outro existir.

Muitas vezes, cada departamento culpa o outro pelos problemas da fábrica. Isso pode aliviar frustrações, mas não reflete a realidade. Manutenção e produção têm mentalidades e abordagens distintas, mas estão tão interligadas que não podem estar em extremos opostos. Se a manutenção é ruim, a produção também será, pois a imprevisibilidade dos equipamentos força os operadores a adotarem práticas ineficientes.

O inverso também é verdade: operadores mal treinados levam à manutenção reativa e comprometem a eficiência da fábrica. Lembre-se disso ao ouvir um departamento menosprezar o outro. Quando isso ocorre, eles também estão admitindo implicitamente que não são bons no que fazem. É como diz o ditado: “quando você aponta um dedo para alguém, três dedos apontam de volta para você”.


Mesmos Objetivos, Perspectivas Diferentes

Manutenção e produção buscam o mesmo objetivo, mas partem de direções opostas. Os problemas começam quando as diferenças filosóficas criam barreiras, em vez de serem usadas para potencializar as habilidades de ambos.

A gestão tem um papel crucial nisso, muitas vezes por inação ou por se limitar a discursos vazios sobre “trabalho em equipe”. Ambos os departamentos precisam entender, de cima a baixo, que precisam não apenas coexistir, mas colaborar. O inimigo não está dentro da fábrica, mas sim nos concorrentes que querem tomar seu mercado.

Um exemplo dessa divisão é a efetividade global do equipamento (OEE), um indicador-chave de desempenho (KPI) comum em fábricas. O OEE é definido como qualidade x taxa de produção x disponibilidade. Muitos interpretam isso como responsabilidade da produção x responsabilidade da produção x responsabilidade da manutenção. Embora seja uma forma prática de dividir prioridades, essa visão é imprecisa.

Ambos os grupos afetam os três parâmetros, positiva ou negativamente. Quando um equipamento quebra, a manutenção é o bode expiatório óbvio. No entanto, muitos departamentos de manutenção veem sua responsabilidade apenas como “entregar o equipamento funcionando” e lavam as mãos até que ele retorne — geralmente em condições piores. Entregar um equipamento em bom estado é só o primeiro passo.


Assumindo a Responsabilidade pelo Equipamento

Uma boa equipe de manutenção não só resolve problemas, mas também evita que eles se repitam. Muitas vezes, isso se limita a instalar um rolamento melhor ou ajustar a lubrificação. Essas são as soluções fáceis. Para realmente assumir a responsabilidade, a manutenção precisa se envolver em todas as etapas da operação do equipamento, colaborando com operadores e gestores para garantir suporte consistente.

Isso não significa apenas apontar erros da produção. Significa ouvir os operadores, entender suas necessidades e treiná-los para operar os equipamentos corretamente. Também exige trabalhar com produção e engenharia, em vez de agir como um grupo independente. É necessário priorizar o que é melhor para a fábrica, não apenas para o equipamento ou para a manutenção.

Não é fácil — como poucos relacionamentos são —, mas é essencial para extrair o máximo das diferentes abordagens de produção e manutenção. Esse é um dos pilares para transformar a manutenção de um “centro de custos” em uma vantagem estratégica.


Falta de Treinamento Adequado

O ideal é o descrito acima, mas, na prática, ocorre o oposto. A manutenção acaba, sem perceber, treinando a produção a não compartilhar informações. Muitos operadores não entendem a mecânica dos equipamentos, mas, após passar 8, 10 ou 12 horas por dia junto a uma máquina, desenvolvem uma intuição sobre seu desempenho.

Para os operadores, é difícil traduzir essa “intuição” em termos técnicos. Em vez de valorizá-la, a manutenção tende a ridicularizá-la ou ignorá-la — especialmente se não houver uma ordem de serviço formal.

Após algumas tentativas frustradas, o operador desiste de repassar informações, pois percebe que não são levadas a sério. Resultado: técnicos de manutenção chegam a emergências e ouvem frases como “está dando problema há semanas” ou “faz barulhos estranhos há três dias”.

O técnico fica irritado por não terem relatado o problema antes, mas o operador apenas agiu conforme foi “treinado” pela própria manutenção. É um ciclo vicioso que prejudica ambos os lados e a lucratividade da empresa.


Enxergue a Produção como uma Ferramenta de PdM

Técnicos de manutenção costumam ser inteligentes, mas nem sempre bons comunicadores. Em geral, preferem dados técnicos e ignoram o aspecto “sensível” do trabalho. Para um mecânico, um problema contornável pelo operador parece menos urgente que uma bomba com baixo fluxo ou uma rota de manutenção preventiva (MP).

Porém, para o operador que passa horas ao lado da máquina, esse pequeno problema é uma grande perturbação. A manutenção precisa aprender a ver a produção como uma ferramenta de manutenção preditiva (PdM), assim como análise de vibração, óleo ou ultrassom.

A produção sempre pressionará a manutenção a resolver problemas, aumentar a confiabilidade e reduzir custos — e exigirá tudo para “ontem”. Isso é normal, pois é o que uma boa equipe de manutenção deve buscar. O problema surge quando a manutenção se vê como um grupo externo e age com arrogância, gerando conflitos.


Simbiótico, mas Não Igualitário

A relação entre produção e manutenção é simbiótica, mas não igualitária. A produção é a “dona do pedaço”. A manutenção odeia admitir, mas é a realidade. Uma analogia útil é o controle civil das Forças Armadas nos EUA: os militares sabem seu trabalho, mas seguem regras definidas por autoridades civis.

A manutenção precisa entender que suas regras — como disponibilidade de equipamentos, orçamento e recursos — são definidas por outros. A decisão deve incluir sua contribuição, desde que o departamento não perca credibilidade por “gritar lobo” constantemente ou falhar em cumprir promessas.


Conclusão

Acredito que a manutenção pode ser o melhor lugar para se trabalhar em uma fábrica. No entanto, ela frequentemente é subestimada por não evoluir ao longo dos anos. Quando evolui, tende a regredir para um estado reativo, especialmente com novas gestões que cedem à pressão da produção.

Gerenciar manutenção não é fácil e não pode ser feito por qualquer técnico. Gestão é uma habilidade que precisa ser aprendida — e infelizmente, faltam oportunidades para desenvolver essas competências.

Por William Jacobyansky.
Traduzido pela equipe de conteúdos da Noria Brasil.
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RP 31692: "Maintenance vs. Production: How to Mend the Relationship"

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