A câmera Polaroid disparou. Keith Schafer removeu o negativo para revelar mais um gráfico de osciloscópio — o “batimento cardíaco” de um motor, congelado em preto e branco. Eram os fins da década de 80, e aquilo era o monitoramento de condição de ponta: sem nuvem, sem bancos de dados digitais, apenas catálogos intermináveis de fotos que Schafer comparava manualmente, buscando padrões que sinalizassem problemas em enormes motores alternativos.
“Eu encarava isso como um garimpeiro garimpando ouro”, relembra Schafer sobre seus dias como analista. “Eu conectava o analisador e não sabia o que ia encontrar, mas queria achar o defeito antes de qualquer outra pessoa.”
Essa mentalidade — curiosidade, paciência e determinação — definiu os 40 anos de carreira de Keith Schafer na indústria de gasodutos. Ele transformou a cultura de sua unidade: de “apagar incêndios” para uma manutenção de precisão. Hoje aposentado, sua jornada de mecânico iniciante a líder de pensamento oferece lições valiosas para os profissionais de confiabilidade atuais.
Os Blocos de Construção: Do Fichário ao Osciloscópio
Schafer começou em 1977. Naquela época, o mecânico líder gerenciava a manutenção preventiva usando um arquivo de fichas pautadas (3×5 polegadas). “Toda manhã ele puxava uma ficha e entregava a você”, lembra Keith. “Um dia você trocava velas; no outro, filtros de óleo.”
Era uma manutenção 100% baseada no tempo. Motores eram abertos para revisão geral (overhaul) a cada 25.000 horas, precisassem ou não. O sistema funcionava, mas era ineficiente e caro.
Aprendendo a Ler os Sinais

A virada ocorreu em 1987, quando a empresa adotou analisadores de motor (osciloscópios) conectados aos volantes. Esses dispositivos mostravam vibração e pressão em cada cilindro. “Em vez de ver uma máquina a 250 RPM como um borrão, eu conseguia determinar exatamente o que estava errado”, explica.
Mas poucos sabiam interpretar os sinais. “Diziam que era adivinhação”. Schafer discordou. Ele estudou cada variação, usando suas Polaroids para criar um catálogo de referência de “assinaturas normais”. Comparando as fotos, ele conseguia prever: “Este tucho hidráulico vai falhar” ou “Estamos perdendo compressão neste cilindro”.

Provando o Caso de Negócios (Business Case)
Schafer sabia que a tecnologia só sobreviveria se mostrasse lucro. Ele começou a enviar relatórios mensais traduzindo falhas técnicas em dólares.
“Se o ponto de ignição estivesse atrasado em dois graus, eu calculava o custo extra de combustível. Se uma válvula falhava, era desperdício de gás. Provamos o valor com dinheiro. A gerência precisa ver o ROI, não apenas dados técnicos.”
Conquistando os Céticos
Nem todos aceitaram a mudança. Alguns supervisores eram hostis, mas o teste real vinha das equipes de reparo. Quando Schafer diagnosticava uma falha em um rolamento interno, os mecânicos tentavam provar que ele estava errado abrindo a peça na oficina.
“Eu dizia exatamente onde estava o defeito no rolamento (pista interna, externa ou esfera). O rolamento girava a 5.000 RPM, invisível, mas eu acertava todas as vezes”. Essa precisão construiu sua credibilidade. Um trabalho que antes levava duas semanas (reconstrução total) passou a levar quatro horas (troca pontual da peça defeituosa).
Quando a Manutenção Preditiva Virou o Padrão
Com a digitalização nos anos 90, Schafer passou a sobrepor gráficos no computador para ver mudanças sutis. Os resultados foram drásticos: motores que antes abriam com 25.000 horas agora rodavam 100.000 a 130.000 horas entre revisões. “Não fazemos mais revisões baseadas no tempo; esperamos o analista dizer que o trabalho é necessário.”

Uma descoberta marcante veio da lubrificação. Ao notar acúmulo de carbono nos anéis, Schafer suspeitou de excesso de óleo. Ele reduziu as taxas de lubrificação em 30% em relação ao manual do fabricante. Resultado? Os motores rodaram limpos por mais 30 anos. Esse projeto, expandido para 135 unidades, reduziu o consumo de óleo em 90% e as falhas de válvulas em 44%.
Construindo a Próxima Geração
Como líder, Schafer incentivava a inovação: “Não faça as coisas só porque sempre foram feitas assim. Como podemos melhorar?”. Ele lutava contra a “mentalidade antiga” de esconder conhecimento por medo de perder o emprego. Schafer trazia especialistas tímidos para compartilhar suas experiências: “Apenas nos conte o que você fez neste projeto. Você não precisa de uma apresentação formal”.

A Lição de Paciência
Para os jovens profissionais, Schafer deixa um conselho sobre o tempo: “Aprenda o que você está fazendo agora antes de se preocupar com o próximo cargo. Levei 40 anos para ser gerente. Domine o trabalho atual primeiro”.
Ele também alerta contra a fé cega na tradição: “Não tome tudo como verdade absoluta. Faça sua pesquisa. Talvez as gerações passadas não tivessem as ferramentas que você tem hoje para provar o contrário”.
Conclusão
Keith Schafer ainda pilota sua Harley-Davidson e explora trilhas nas montanhas, mas seu legado na indústria de compressores permanece. Quer você trabalhe com fichas de papel ou com Inteligência Artificial, os princípios são os mesmos: curiosidade, documentação rigorosa e a coragem de desafiar o status quo.
A inovação mais valiosa geralmente vem de quem está disposto a olhar para o que todos chamam de “ruído” e ter a paciência de entender o que a máquina está realmente tentando dizer.

