Ao longo dos anos, os profissionais de manutenção e lubrificação tiveram que lidar com diversas formas de classificar a viscosidade dos óleos industriais e automotivos. Temos a classificação SAE (Society of Automotive Engineers) para óleos de motor e transmissão, a classificação AGMA (American Gear Manufacturers Association) para redutores, além de unidades como SUS (Saybolt Universal Seconds), cSt (viscosidade cinemática em centistokes) e a viscosidade absoluta.
Para aumentar a confusão, duas escalas de temperatura (Fahrenheit e Celsius) costumam ser aplicadas a essas medições, sem contar que a viscosidade pode ser apresentada tanto a 40°C quanto a 100°C.
Embora todas essas classificações tenham sua utilidade histórica, a maioria dos profissionais de lubrificação adota um método único como base para selecionar produtos. Para quem está entrando na área agora, essa montanha de opções pode ser confusa — especialmente se o fornecedor do lubrificante não destacar claramente o sistema de viscosidade no rótulo do produto.
Além disso, os projetistas de máquinas precisam especificar a viscosidade de uma forma que o usuário final entenda exatamente o que o equipamento precisa, sem ter que recorrer a manuais complexos ou consultorias externas. Isso evidencia a necessidade de uma designação de viscosidade universalmente aceita — que possa ser usada simultaneamente por técnicos de campo, engenheiros de confiabilidade, fornecedores e projetistas, com o mínimo de confusão.
Em 1975, a ISO (“International Organization for Standardization” e “Organização Internacional de Padronização”, em PT-BR), em conjunto com a ASTM, STLE, BSI e DIN, definiu um padrão para acabar com essa bagunça. Esse sistema ficou conhecido mundialmente como Grau de Viscosidade ISO, ou simplesmente ISO VG.
O Que É Viscosidade?

Não é preciso muito tempo de chão de fábrica para ouvir que a viscosidade é a propriedade física mais importante de um fluido ao definir os requisitos de lubrificação de qualquer máquina.
A viscosidade é a medida da resistência do óleo ao escoamento (tensão de cisalhamento) sob determinadas condições. Simplificando: é o quanto o óleo “quer ficar parado” quando é empurrado pelas peças mecânicas em movimento.
Imagine um esquiador aquático cortando a água. A água tem viscosidade cinemática próxima de 1 cSt em temperatura ambiente. Conseguimos ver a quantidade de água que um esquiador profissional desloca ao passar pelo circuito. Se esse mesmo esquiador estivesse em um lago de óleo de engrenagens SAE 90 / ISO VG 220, sob as mesmas condições, o “spray” de óleo gerado seria consideravelmente menor. O fluido resistiria à força do esqui com muito mais intensidade.
O projetista de máquinas avalia essa resistência sob duas perspectivas:
- Viscosidade Absoluta (ou Dinâmica): Mede como o fluido se comporta sob pressão externa (como uma linha hidráulica pressurizada). Ela avalia o comportamento sob tensões de cisalhamento e é medida em centipoise (cP).
- Viscosidade Cinemática: Mede como o fluido escoa sob a força da gravidade. Ela é medida em centistokes (cSt).
As duas estão diretamente relacionadas através da densidade relativa do fluido. Para encontrar o valor em centipoise (cP), multiplica-se a viscosidade cinemática (cSt) pela densidade relativa do fluido (ou mede-se diretamente usando um viscosímetro absoluto). Para o profissional de lubrificação industrial, o centistoke (cSt) é a unidade que mais vai exigir atenção no dia a dia.
Nota de Campo sobre Óleos em Uso: Se você realiza rotinas de análise de óleo em equipamentos em operação, vale a pena monitorar a viscosidade em unidades absolutas (cP). A medição convencional em centistokes (cSt) pode ser enganosa porque a densidade do lubrificante muda (geralmente aumenta) conforme ele envelhece e oxida. É perfeitamente possível que um óleo ultrapasse o limite de viscosidade absoluta aceitável para a folga da máquina, mas a medição cinemática ainda indique que o lubrificante está “dentro da faixa ideal”.
Em resumo, a viscosidade mede a resistência ao escoamento. A água tem uma viscosidade baixa (1 cSt) e o mel tem uma viscosidade muito alta (digamos, 1.000 cSt). Se uma máquina opera sob carga pesada, o projetista especificará um lubrificante que resista a ser expulso da zona de contato — algo encorpado como o mel. Se a máquina gira em altíssima rotação, o projetista especificará um lubrificante fluido, que consiga sair e voltar para a zona de atrito com a mesma velocidade. Geralmente, as máquinas industriais exigem atenção para um desses cenários; às vezes, para ambos ao mesmo tempo.
Como a Viscosidade É Medida em Laboratório
As viscosidades são definidas usando um aparelho de laboratório chamado viscosímetro. Para óleos lubrificantes, os viscosímetros costumam operar por gravidade, não por pressão. Pense em um viscosímetro cinemático como um longo tubo de vidro que armazena um volume de óleo. A viscosidade do fluido é calculada medindo o tempo que uma quantidade exata de óleo leva para escorrer pelo tubo sob condições térmicas rigorosamente controladas.
Como as condições de teste são perfeitamente repetíveis, o tempo de escoamento deve ser praticamente o mesmo em cada ensaio. É uma lógica parecida com medir o tempo que um volume de fluido leva para esvaziar através de um funil. Conforme o fluido fica mais espesso (aumentando sua resistência ao escoamento), ele leva progressivamente mais tempo para passar pelo tubo. A água passa em um segundo; a mesma quantidade de mel levaria mil segundos (hipoteticamente).
Sabemos que se aumentarmos ou reduzirmos a temperatura de um fluido, haverá uma mudança correspondente na sua resistência ao escoamento: o óleo fica mais grosso (viscoso) em temperaturas baixas e mais fino (fluido) em temperaturas altas. Diante de tantas variáveis, as entidades internacionais decidiram padronizar essa medição para criar uma linguagem comum na indústria.
O Propósito do Sistema ISO VG
O objetivo da classificação de graus de viscosidade ISO é estabelecer um método padronizado para que fornecedores de lubrificantes, fabricantes de equipamentos e usuários tenham uma base comum para especificar ou selecionar óleos industriais.
O Comitê Técnico da ISO (TC23) avaliou minuciosamente várias abordagens antes de fechar um modelo lógico e fácil de usar. Eles mantiveram alguns critérios essenciais desde o início:
- Referenciar os lubrificantes a uma temperatura padrão nominal para sistemas industriais.
- Adotar faixas que respeitem as incertezas normais de tolerâncias de fabricação.
- Garantir uma lógica de repetibilidade ao longo de toda a escala.
- Manter um número pequeno e facilmente gerenciável de graus de viscosidade no mercado.
A temperatura de referência para a classificação precisava ser próxima da realidade média de operação na indústria. Ela também deveria se alinhar a outras temperaturas usadas para definir propriedades como o Índice de Viscosidade (IV). Os estudos apontaram que a temperatura de 40°C era a mais adequada tanto para a classificação de lubrificantes industriais quanto para as equações de projeto. Portanto, a classificação de viscosidade ISO é baseada estritamente na viscosidade cinemática medida a 40°C.

Entendendo os Limites e as Faixas de Tolerância
Para que essa classificação pudesse ser usada diretamente em cálculos de engenharia (onde a viscosidade é apenas uma das variáveis), era necessário que a largura do grau de viscosidade (a faixa de tolerância) não passasse de 10% para mais ou para menos em relação ao seu valor nominal (ponto central). Isso reflete uma margem de incerteza nos cálculos semelhante àquela imposta pelas próprias tolerâncias de fabricação das peças mecânicas.
Essa limitação, somada à meta de não ter uma quantidade excessiva de produtos no mercado, levou à adoção de um sistema com intervalos matemáticos entre os graus de viscosidade.
A norma define 20 graus de viscosidade, cobrindo uma faixa de 2 a 3200 milímetros quadrados por segundo (onde 1 mm²/s equivale a 1 cSt) a 40°C. Para fluidos de base petrolífera, isso cobre praticamente tudo, desde o querosene até óleos ultraviscosos para cilindros.
Cada grau de viscosidade é designado pelo número inteiro mais próximo do ponto central de sua viscosidade cinemática a 40°C. Por exemplo, um óleo ISO VG 68 possui um ponto central de 68 cSt a 40°C, podendo variar legalmente entre 61,2 cSt e 74,8 cSt (limites de +/- 10%).
A classificação se baseia no princípio de que a viscosidade nominal de cada grau deve ser aproximadamente 50% maior do que a do grau anterior. A divisão de cada década em seis etapas logarítmicas iguais viabilizou esse sistema e garantiu uma progressão uniforme de ponta a ponta. A série logarítmica foi arredondada para simplificar o uso no dia a dia. Mesmo com o arredondamento, o desvio máximo das viscosidades reais em relação à série matemática é de apenas 2,2%.
As tabelas de conversão do mercado costumam reunir os métodos de medição mais populares. Se o profissional de manutenção está acostumado com um tipo de unidade (como AGMA) mas deseja ver o grau ISO correspondente, basta traçar uma linha horizontal imaginária para cruzar os sistemas e encontrar a correlação.
Uma Nota Importante sobre Qualidade
É fundamental destacar que esta escala não define a qualidade do lubrificante. O fato de um produto exibir um número ISO VG no rótulo indica apenas a sua viscosidade física a 40°C, não tendo qualquer relação com seu pacote de aditivos, sua base sintética/mineral ou sua performance em campo.
A especificação ISO vem sendo adotada e refinada globalmente desde 1975. A atualização mais consolidada (norma ISO 3448) dita os 20 graus de viscosidade que cobrem quase todos os cenários que um profissional de lubrificação encontrará na indústria. O mercado produtor de lubrificantes aceitou em massa esses padrões, dedicando esforços significativos para enquadrar seus produtos (antigos e novos) nessa abordagem.
No ambiente automotivo, dificilmente abandonaremos o sistema de classificação SAE, já que a maioria de nós aprendeu a olhar o óleo do motor sob o capô do carro usando os tradicionais valores SAE 10W-40, 20W-50, etc. No entanto, no universo da lubrificação industrial e do PCM, a dependência e o uso do padrão ISO VG são e continuarão sendo absolutos.

