Um estudo de caso sobre detecção precoce, limites do aprendizado e evolução sistêmica

Autor original: Gleidson Batista, consultor técnico na Confialub

Resumo

Durante o período de safra, um sistema de monitoramento on-line identificou indícios de falha incipiente em um rolamento de redutor de eixo paralelo operando a 1350 rpm. A atuação evitou uma parada não programada, garantindo a disponibilidade do ativo. Contudo, a análise pós-intervenção revelou que, apesar do sucesso operacional, a ausência de identificação da causa raiz limitou o aprendizado organizacional e manteve o risco de recorrência. Este artigo discute os acertos da tratativa, suas limitações e como a aplicação estruturada de ferramentas de confiabilidade poderia ter elevado o processo ao nível de manutenção proativa.

1. Contexto do evento

O sistema de monitoramento on-line gerou um alerta automático baseado em análise espectral e envelope de aceleração, indicando um padrão compatível com falha incipiente de rolamento.

Considerando o período crítico de safra, optou-se tecnicamente por:

  • acompanhar a evolução do indicador;
  • monitorar a tendência de vibração;
  • avaliar a criticidade operacional;
  • planejar a intervenção para a entressafra.

Após o acompanhamento técnico e inspeção física, confirmou-se o desgaste progressivo no rolamento. A tendência de desgaste foi monitorada e a substituição preventiva foi realizada ao fim da safra, sem perdas operacionais para a planta.

2. Aspectos positivos da tratativa

Do ponto de vista da manutenção preditiva, a condução foi tecnicamente correta e madura, destacando-se:

  • a detecção precoce do modo de falha;
  • o uso adequado de técnicas sensíveis;
  • a decisão baseada em risco e impacto produtivo;
  • a evitação de falha funcional durante a safra;
  • a eliminação de parada não programada.

Esses pontos demonstram um processo já afastado da manutenção reativa e alinhado com boas práticas de gestão de ativos.

3. Evidências físicas e limitações do aprendizado

A análise visual da pista e dos elementos rolantes do rolamento revelou estrias longitudinais contínuas, desgaste uniforme entre os rolos e ausência de pitting, spalling ou falha elétrica.

Esses são sinais claros de desgaste abrasivo progressivo. As evidências indicam que a falha não ocorreu por fadiga natural, mas por um mecanismo sistêmico, associado principalmente a:

  • contaminação sólida do lubrificante;
  • ruptura recorrente do filme lubrificante;
  • possível deficiência de vedação ou especificação de lubrificante.

Apesar disso, a tratativa se encerrou na correção do efeito (substituição do rolamento), sem a identificação formal da causa raiz.

4. Onde o processo deixou de evoluir

Sem a identificação do mecanismo de falha, ocorreram limitações importantes:

  • o aprendizado ficou restrito ao ativo analisado;
  • não houve desdobramento para ativos similares;
  • os planos de manutenção não foram revisados;
  • o risco de recorrência permaneceu ativo.

Nesse ponto, o processo deixou de caracterizar engenharia de confiabilidade e permaneceu como uma boa manutenção preditiva.

5. Caminho para a manutenção proativa

A manutenção proativa se diferencia por eliminar as causas das falhas, não apenas detectá-las. Para isso, algumas ferramentas são fundamentais.

5.1 RCA – Análise de causa raiz

Aplicável mesmo sem falha funcional, permitiria identificar o mecanismo dominante (contaminação, lubrificação, vedação), direcionar ações corretivas definitivas e evitar a repetição da falha.

5.2 RCFA – Análise de causa raiz das falhas

Especialmente útil com evidências físicas disponíveis, possibilitaria a análise detalhada do rolamento removido, a correlação com as condições operacionais e a transformação da evidência em aprendizado organizacional.

5.3 FMEA – Análise de modo de falha e seus efeitos

Aplicada ao sistema de acionamento (motor, acoplamentos alta/baixa e redutor), permitiria a identificação dos modos de falha críticos, a priorização de tratativas levando em conta o risco, a revisão de controles preventivos e detectivos (MPs e inspeções) e o estabelecimento do estado ótimo de referência (ORS).

5.4 Análise do Intervalo P–F

A evolução lenta do dano indicou um P–F relativamente longo e uma oportunidade clara de antecipar ações preventivas. Essa ferramenta ajudaria a ajustar limites de alarme, definir janelas ideais de intervenção e alinhar o monitoramento à estratégia de confiabilidade.

5.5 Gestão de Contaminação e Lubrificação

Envolve ferramentas complementares como análise de óleo/graxa, revisão de vedação, padronização de práticas de lubrificação e controle de limpeza e filtragem.

5.6 Gestão do programa de análise de óleo

O modo de falha identificado foi desgaste abrasivo progressivo por contaminação sólida somado à ruptura do filme lubrificante.

Este tipo de falha não nasce na vibração. Ela nasce na entrada de contaminante, na degradação do lubrificante e no aumento de partículas. A vibração só “ouve” o problema depois que o dano já existe.

A análise de óleo atua antes do P funcional, no que chamamos de domínio proativo da curva P–F. Dados da SKF indicam que 51% das falhas em rolamentos são decorrentes de contaminação e lubrificação ineficaz.

Um programa de análise de óleo teria detectado nesse caso:

  1. Saúde do lubrificante (antes do dano): através de análise de viscosidade e dos aditivos.
  2. Contaminação (antes do dano): via contagem de partículas, análise de contaminação cruzada (mistura de lubrificantes) e análise de umidade.
  3. Desgaste inicial (sem falha): através de densidade ferrosa, ferrografia analítica e teste de membrana.

Comparando as posições na curva P–F:

  • Sem análise de óleo: Contaminação $\rightarrow$ desgaste $\rightarrow$ dano $\rightarrow$ vibração $\rightarrow$ alarme $\rightarrow$ intervenção.
  • Com análise de óleo: Contaminação $\rightarrow$ Alarme $\rightarrow$ ação corretiva $\rightarrow$ Zero Dano.

As evidências físicas observadas no rolamento indicaram desgaste abrasivo progressivo, típico de sistemas operando sob contaminação sólida e regime de lubrificação limite. Esse mecanismo de falha se desenvolve muito antes de qualquer resposta vibracional significativa. Nesse contexto, um programa estruturado de análise de óleo poderia ter identificado precocemente o aumento do nível de partículas sólidas (ISO 4406), indícios de contaminação externa, degradação do lubrificante (oxidação e perda de viscosidade) e desgaste inicial por abrasão, ainda sem dano funcional.

A atuação nesse estágio permitiria ações corretivas como melhoria de vedação, filtração, troca ou reespecificação do lubrificante, interrompendo o mecanismo de falha antes do início do desgaste do rolamento.

6. Evolução sistêmica esperada

Com a aplicação dessas ferramentas, o evento poderia ter gerado:

  • revisão de especificações do lubrificante e vedações;
  • ajuste de planos de lubrificação;
  • inspeção preventiva em redutores similares;
  • atualização da matriz de criticidade;
  • fortalecimento da cultura de confiabilidade.

Assim, o sistema deixaria de aprender a reagir e passaria a aprender a evitar.

7. Conclusão

O caso analisado demonstra um alto nível de maturidade em manutenção preditiva, com ganhos claros de disponibilidade e segurança operacional. Entretanto, evidencia também o limite desse modelo quando não há identificação estruturada da causa raiz.

A transição para a manutenção proativa exige que cada evento seja tratado como fonte de aprendizado sistêmico, e não apenas como um problema resolvido. Ferramentas de confiabilidade existem exatamente para transformar dados e evidências em decisões que eliminam falhas antes que elas voltem a ocorrer.

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